Risco de penhora e bloqueios: a crise no RCE
O Corinthians enfrenta uma ameaça severa à sua estabilidade jurídica após deixar de cumprir pagamentos obrigatórios do Regime Centralizado de Execuções (RCE). Segundo documentos analisados pelo UOL Esporte, o clube não repassou R$ 10,1 milhões que deveriam compor a fila única de credores. Este mecanismo, essencial para a saúde financeira do Timão, é o que atualmente blinda o clube de penhoras e bloqueios em suas contas bancárias.
A reestruturação de dívidas, homologada pela Justiça em janeiro, prevê até dez anos para o pagamento de cerca de R$ 239 milhões a empresários, agências de atletas e ex-parceiros comerciais. O descumprimento parcial dos repasses coloca esse acordo em xeque, abrindo margem para que a Justiça reabra execuções individuais, o que poderia comprometer severamente o fluxo de caixa do clube a curto prazo.
Os números por trás da inadimplência
A situação se agravou nos últimos meses. O clube pagou, com dez dias de atraso, apenas R$ 3,5 milhões dos R$ 6 milhões referentes à receita de julho. Posteriormente, o pagamento de R$ 7,6 milhões, vencido em outubro, também não foi liquidado. Vale destacar que, enquanto essas parcelas do RCE ficaram em aberto, o Corinthians manteve em dia os pagamentos ao fundo que assumiu a dívida pela contratação do meia Rodrigo Garro.
Segundo a administradora judicial, o repasse de valores a credores externos ao regime reduz o montante disponível para os credores que integram a fila do RCE, o que gera uma distorção no cumprimento das obrigações judiciais. Esse cenário motivou a Pixbet, ex-patrocinadora e credora, a solicitar formalmente que a Justiça reconheça o descumprimento do plano de pagamento por parte do Corinthians.
Pressão da CNRD e possíveis sanções esportivas
Para além dos problemas cíveis, o Corinthians lida com pendências na Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD) da CBF, onde possui R$ 76 milhões parcelados. No dia 19 de outubro, venceu uma parcela de R$ 8 milhões que não foi paga. O não cumprimento das decisões da CNRD é um risco adicional, podendo resultar em punições severas, como o 'transfer ban' — proibição de registrar novos atletas — e o bloqueio de receitas de premiações.
Com uma dívida total estimada em R$ 2,7 bilhões, o clube precisa equilibrar essas obrigações sob o escrutínio do fair play financeiro da CBF. A exposição a sanções esportivas, combinada com a fragilidade jurídica no RCE, eleva o nível de preocupação com a gestão das receitas corinthianas nos próximos meses.
Próximos passos e a posição do clube
O processo que tramita na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo teve um desdobramento importante no dia 16 de outubro. A juíza responsável determinou um prazo de 15 dias para que a Laspro, administradora judicial do regime, se manifeste sobre o pedido da Pixbet de descumprimento do plano. Caso o pedido seja aceito, o RCE perde seus efeitos, permitindo que credores retomem cobranças individuais com risco de penhora imediata.
Em nota oficial, o Corinthians declarou que acompanha a execução do plano de forma técnica e responsável. O clube afirmou que apresentará esclarecimentos detalhados sobre fluxos de pagamento, contratos e cessões de recebíveis diretamente nos autos do processo e para a administradora judicial, mantendo o silêncio sobre questões específicas enviadas pela reportagem.


Ainda não há comentários. Seja o primeiro a participar.